Afrique

 


 

Logo da Tra(N)s-formações


Kader Attia, Caos + Reparo = Universo, 2014
Escultura. Espelhos, fios de metal
Installationsansicht, Sacrifice and Harmony, MMK, Frankfurt, 2016
Cortesia do artista e Galleria Continua
Foto: Axel Schneider


Kader Attia nasceu em 1970 e cresceu nos subúrbios de Paris e Argélia.
Desenvolveu uma prática dinâmica que reflete sobre estética e ética de diferentes culturas e questiona o conceito de reparação como uma constante na natureza humana, sobre a qual os mundos ocidental e não ocidental sempre tiveram visões opostas.
Agradecemos a ele por generosamente nos permitir usar Chaos + Repair= Universe como logo da AfricaS, Tra(N)s-formations.


ÁfricaS, Tra(N)s-formações

apresentação
Editado por: Livio Boni, Cristiano Rocchi, Daniela Scotto di Fasano 


É nosso objectivo neste site inaugurar, no âmbito do “Geografias da Psicanálise”, uma janela dedicada à África, continente que permanece essencialmente ausente do 'mapa-múndi' da psicanálise e, no entanto, está cada vez mais presente na realidade ocidental, apesar de padecer de representações redutivas que vão da sobrevivência compulsiva de um imaginário colonial a radicalmente visões distópicas, nenhuma das quais é capaz de dar expressão à complexidade de sua realidade.

Não se trata de tomar a realidade composta africana e confeccionar um objeto para a Psicanálise, permanecendo sempre condicionado pela etnografia, mas de trabalhar a significação fantasmática que ainda é veiculada no significante 'África' e seus derivados. Com isso em mente, enquanto continuamos nossos esforços para desconstruir os imaginários construídos ao longo da história moderna (marcada pela escravidão e colonização) em torno do 'Continente Negro', e tomamos como modelo aquele proposto por Edward Said (1978) para o Oriente e o orientalismo, queremos trilhar o caminho proposto de forma diferente.

De fato, mais do que mobilizar diretamente a Psicanálise para contribuir na criação de aberturas na cortina fantasmática que cobre o termo 'África', gostaríamos de iniciar um diálogo,  mais psicanalítico, com uma série de vozes africanas – literárias, artísticas, filosóficas, antropológicas, médicas, históricas etc. – que, embora não pertençam ao campo psicanalítico – a psicanálise praticamente ausente do continente, salvo algumas exceções, como o Magreb , Senegal ou África do Sul – interceptam utilmente uma série de perguntas audíveis com a Psicanálise. Vamos citar alguns deles, sem sermos exaustivos:

  • A coexistência, no continente africano, de uma multiplicidade de regimes históricos, que vai do mais antigo ao mais pós-moderno, o que impossibilita a redução do espaço africano a uma temporalidade histórica unívoca, e repõe a questão freudiana da coexistência em vários regimes de temporalidade, tanto na vida do indivíduo quanto a partir do coletivo (FARR, 2021)
  • A internalização dos modelos herdados de dominação colonial, tanto ao nível do comportamento das classes dominantes africanas como ao nível do desejo colectivo de construir Estados-nação homogeneizados, culturalmente unitários, baseados no modelo das nações europeias, e as repercussões patológicas de tal introjeção (MBEMBE, 2016)
  • Mas paralelamente a tão irrefutável persistência e perversão dos modelos importados de dominação colonial (BONI, 2018), é possível observar decisivamente transformações e contaminações pós-coloniais, por exemplo a infiltração generalizada de lógicas ligadas à feitiçaria (posse, magia, mau-olhado, fetichismo, etc.) no próprio cerne do funcionamento dos Estados, em particular na África central e ocidental e, mais amplamente, sua condensação através da sabedoria 'tradicional' e das tecnologias políticas modernas (TONDA, 2021) .


Será nossa tarefa organizar um discurso que seja reforçado pelas vozes de especialistas que empreenderam uma reflexão dedicada sobre esses temas. Procuraremos simultaneamente compreender a elaboração 'relativa' - na medida em que específica e contextual - do pós-colonialismo.

A referência ao paradigma pós-colonial como um paradigma crítico, que pode ser articulado com o estudo psicanalítico, deve, portanto, ser tomado como um dinâmico referência epistêmica, a ser desdobrada na tentativa de dar conta das “tra(N)formações” em curso no continente africano, para entender se estas podem ser consideradas apenas como transmutações nas mesmas categorias importadas da modernidade colonial, ou como sua hibridização com os indígenas Categorias ressurgindo da 'noite colonial'.

Como em qualquer fase séria de reconhecimento preliminar, consideramos que algumas pistas a seguir seriam úteis. Para começar, tentaremos entender melhor o que é conhecido como 'pós-colonialismo'; e pensando em como nos orientar nos trilhos em que tantos consequentemente se encontram no continente africano, decidimos recorrer a… uma bússola.

Na Psicanálise temos um conceito, o de Nachträglichkeit, que pode ser traduzido em inglês como ação diferida, e que é melhor traduzido para o francês como 'pós-golpe', que aqui parece servir para o efeito na medida em que conduz subitamente ao mundo do 'pós' e pode, sem dúvida, constituir uma ajuda para nos situarmos. Seguindo esse conceito de Instrumento, podemos tentar repensar o estatuto da temporalidade e da causalidade psíquica 'outra' da subjetividade dos indivíduos singulares; avançando, portanto, também com o auxílio dessa bússola psicanalítica, nos campos dos macrogrupos.

Como no título da janela, gostaríamos de nos preocupar com a tra(N)s-formações que ocorreram, e que estão ocorrendo, na África.

A referência ao paradigma pós-colonial como um paradigma crítico, que pode ser articulado com uma abordagem psicanalítica e que, portanto, deve ser tomado como dinâmico referência epistêmica, visando a tentativa de reunir as “tra(N)s-formações” em curso no continente africano, a fim de compreender se estas podem ser entendidas como transmutações do mesmo Categorias importados da modernidade colonial: os de território, Estado, fronteira, etnia, genocídio, reconciliação, etc.

Uma vez estabelecidas essas premissas sobre a direção geral da janela “ÁfricaS” dentro da Geografia da Psicanálise (PRETA, 2016), vamos agora esboçar linhas sobre o método e materiais que esperamos incluir aqui e ser inspiradores para os colaboradores.

Subjetivando, ao invés de objetivar: a janela deve propor análises e reflexões a partir de o interior do espaço africanoe, e não de uma perspectiva sobre África, vinda das Ciências Humanas ou Sociais ou dos “estudos africanos”. Desejamos, de fato; privilegiar as interpretações deste continente crioulo, África, em suas próprias palavras (Scego, 2021), na verdade sub-representada na economia do conhecimento.

Através do conceito de Afropeans (PITTS, 2019), que designa a identidade dos africanos firmemente estabelecidos na Europa, ou a dos afropolitanos, autores que publicam e vivem no Ocidente, pela urgência atual da questão racial, mas também pela possibilidade de ser surpreendido por perguntas inesperadas, a janela procurará tentar manter-se o mais fiel possível ao objetivo de ver a África pelos olhos de quem ali vive (PIAGGIO, 2021). No centro de nossos interesses a questão da raça; da racialização e do racismo recentemente revisitados em Psicanálise (BONI-MENDELSOHN, 2021; HOOK-GEORGE, 2021), para repensar as categorias herdadas do antirracismo tradicional do pós-guerra. Tentaremos, portanto, revisitar a questão racial buscando articulá-la com as categorias de 'gênero' e 'classe', como uma categoria que não é intrinsecamente discriminatória, mas suscetível de abarcar momentos transformadores, hibridizações e demandas, como explorado também na janela Racismo, também incluída no site “Geografia da Psicanálise”. Esperamos, portanto, que em 'ÁfricaS' possamos tentar compreender os diversos modos e formas de integração no Eu das experiências de colonização e do possível trabalho de (des)colonização. Por exemplo, a perda de identidade dos povos africanos (basta pensar no significado, não apenas simbólico, nas deformações das fronteiras e nomes dos estados), que repensaremos, também à luz de determinadas correntes em curso, como uma identidade : uma espécie de 'transgênero étnico'. Ou, como nas palavras de Achille Mbembe, a representação prefeita da ÁfricaS e a de sempre ser moldada pela mobilidade?

Para uma antropologia reversa: como as Áfricas veem a Europa e, de forma mais geral, o Ocidente? E de que maneira uma mudança de perspectiva semelhante pode contribuir para nossa auto-representação? Através do incentivo a uma certa “antropologia inversa”, que uma série de escritores africanos já praticam desde os anos cinquenta (DADIE, 1959), centraremos o nosso interesse na visão africana, ou euro-africana, do ex-colonial metrópoles – Paris, Londres, Roma ou Lisboa, e, mais genericamente, nas cidades europeias que foram particularmente influenciadas pela história colonial, onde a influência colonial se fez sentir de forma particularmente forte no espaço urbano, monumental-artístico e toponímico da Europa cidade (SCEGO, 2014 WU MING, 2018).

Ao abrir essa janela, estamos conscientes do fato de que uma variedade de correntes e disciplinas – como a etnopsiquiatria, movimentos de descolonização do que muitas vezes são chamadas de artes “primitivas”, para não falar da literatura ou de vários ramos da “arte popular” “cultura – já estão ativamente engajados em um esforço altamente fértil de confronto com os diferentes 'africanismos”. Em ÁfricaS - Tra(N)formações pretendemos, no entanto, empreender este percurso partindo de outra vertente, a da Psicanálise, que nos parece ter acumulado um certo atraso nesse movimento de abertura a outras formas de saberes e práticas discursivas .

O foco da janela será, portanto, a tentativa de compreender na superfície variegada da África se, quando e como a Psicanálise chegou e como entrou em relação com a realidade cultural e social do local, ou se, em cada caso e mesmo assim, mapear as diferentes modalidades em que os processos coloniais e pós-coloniais foram elaborados. De fato, a África se caracterizou, no tempo, por uma difusão descontínua e fragmentária da Psicanálise, como em retalhos: na África do Sul com Mark Solms e, Suzannz Maiello, da AIPPI, que ali realizou uma valiosa Observação Infantil; no Senegal, novamente com Observação Infantil, ao trabalho de Rosella Sandri com o AIDOBB; na Tunísia com Fethi Benslama; em Alexandria, no final da Segunda Guerra Mundial, cidade de onde se originaram alguns notáveis ​​analistas francófonos como Moustapha Safouan, Sami Ali; Tobie Nathan, Jacques Hassoun. Não será possível não nos interessarmos em melhor mapear e compreender tal devir.


Bibliografia
BONI Lívio, L'inconscio pós-colonial. Geopolitica della pcicoanalisi, Milão, Mimesis, 2018.
BONI Lívio, MENDELSOHN Sophie, La vie psychique du racismoe (1): l'empire du démenti, Paris, La Découverte, 2021. See More
DADIÉ Bernardo, Um negro em paris, Paris, Présence Africaine, 1959.
HOOK Derek, GEORGE Sheldon (ed.), Lacan e Race. Racismo, Identidade e Teoria Psicanalítica, Londres- Nova York, Routledge, 2021
MBEMBE' Aquiles, «Necropolítica»,Cultura Pública,vol.15, no 1,‎ 2003.
PIAGGIO Chiara, Introdução, em PIAGGIO Chiara, SCEGO Igiaba, a cura di, Africana. Recolha o Continente al di là degli stereotipi, Milão, Feltrinelli, 2021
PITTS Johnny, afro-americano. Notas da Europa Negra, Londres, Pinguim, 2019.
PRETA Lorena (dir), Cartografie dell'incnscio. Un novo Atlante para a Psicoanalisi, Milão, Mimesis, 2016.
DISSE Eduardo, Orientalismo, Pantheon Books, 1978.
SARR Felwine, Afrotopia, Paris, Philippe Rey, 2016.
SCEGO Igiaba (em colaboração com Rino Bianchi), Roma nega. Percorsi postcoloniali nella città, Roma, Ediesse, 2014.
SCEGO Igiaba, L'Africa é um continente, em PIAGGIO Chiara, SCEGO Igiaba, a cura di, Africana. Recolha o Continente al di là degli stereotipi, Milão, Feltrinelli, 2021
TONDA José, Afrodistopia. La vie dans le rêve d'Autrui, Paris, Karthala, 2021. See More
WU MING (Collettivo), “I fantasmi coloniali infestano le nostre città, 2018, consultável em Rete https://www.wumingfoundation.com/giap/2018/10/viva-menilicchi-4/


entrevistas


Entrevista Padre Mosè para a Eritreia
Por Cristiano Rocha

Cristiano Rocha: 

Temos essa "janela" nas Geografias da Psicanálise que, como você sabe, busca traçar um mapa do psiquismo a partir das interconexões e interações geradas por culturas mesmo distantes de uma origem psicanalítica, explorando questões complexas que encontram expressão diversa nas diversas realidades, de modo a dar uma visão geral da Psicanálise e dos temas psicanalíticos. Agora, acho que seria justo descrevê-lo como “homem de ação”, então, quão útil e importante você considera o pensamento para apoiar a realização e nutrir eventuais transformações?  

Padre Mos: 
É importante, também nos ajuda, como africanos, a refletir sobre nós mesmos; onde estamos, de onde viemos, para onde queremos ir e que futuro queremos para nossa África e nossos jovens; pensar no futuro e no que foi até agora. Pelo menos, que aspecto do passado vale ou não a pena preservar; o que deve ser conservado e o que, em vez disso, foi inútil ou até prejudicial para nós; em outras palavras, em vez de nos ajudar a avançar, o que nos paralisou ou até mesmo nos fez retroceder. Então, a meu ver, é útil refletir sobre todos os aspectos e de todos os ângulos possíveis que possam nos ajudar. Para mim, cada reflexão que surge, independentemente de sua origem ou natureza, representa um estímulo útil e convincente para a ação.  

Cristiano Rocha: 
Bem, isso é muito interessante e fico feliz em ouvir isso. Porque você sabe, às vezes pode parecer haver uma lacuna muito grande entre o fazer e o pensar sobre certas coisas. Por isso, às vezes também me pergunto até que ponto é possível criar uma ponte real e significativa entre o pensamento e a ação.

Padre Mos:

Bem, quem sabe? Mas o que considero extremamente prejudicial, e não apenas para nós africanos, é o fato de que a ênfase foi colocada acima de tudo no fazer em oposição ao pensar. Porque, se não continuarmos a expandir o pensamento, o fazer acabará por se dobrar e correremos o risco de repetir os erros do passado. Mas se há um processo de pensamento, amadurecido a partir de diferentes pontos de vista, em torno de todos os aspectos da vida de homens e mulheres, então o pensamento ajuda a criar novos caminhos e horizontes para enquadrar a ação. O fazer deve ser a tradução do pensamento, e não o contrário.

Cristiano Rocha: 

De fato sim. Portanto, um modus operandi e cogitandi entrelaçados. 

Padre Mos:

Bem, sim, sim.

Cristiano Rocha: 

Uma pergunta mais geral que tenho a fazer é esta: vários estudiosos observaram que os países pós-coloniais modernos podem acabar se assemelhando a uma segunda cópia de um grande país europeu e, assim, tornar-se um terreno ideal para efetivar seus objetivos econômicos, sociais e culturais. Esta é uma afirmação feita por um estudioso como Chatterjee. O que você acha? Como você interpretaria tal afirmação? Até que ponto você compartilha dessa visão?

Padre Mos: 
Bem, eu concordo substancialmente com isso. Este tem sido o caso em muitas partes da África. Os estados modernos estabelecidos após a independência tiveram independência física, mas não política, cultural ou econômica. O sistema geral ainda é pré-colonial, ou seja, o sistema implantado pelos colonizadores; de fato, os novos governantes ou a chamada classe intelectual desses países foram educados nas colônias ou nos países colonizadores, porque os colonizados foram para a França, Grã-Bretanha ou outros lugares, onde se familiarizaram com o sistema europeu. Portanto, eles estavam “trazendo” ao invés de “buscando” em sua chegada, ao contrário dos missionários; você sabe, os Papas, ou pelo menos alguns deles, diriam: "Você deve inculturar o Evangelho. Você não deve simplesmente transportar o modelo latino como é; você deve inculturar no..."

Isso não foi feito no âmbito político e econômico dos países que eram novos ou finalmente libertados do colonialismo. Eles mantiveram os sistemas políticos e econômicos do país colonizador e procuraram imitar, assimilar ou assemelhar-se ao Ocidente e à Europa tanto quanto possível, esquecendo suas próprias raízes, ou seja, sua própria cultura, tradições e mentalidade e tudo mais. dos hábitos e costumes que serviriam para construir um novo modelo econômico, político e educacional.

Até nossas escolas e seus currículos seguem um modelo de estilo europeu. Em muitos países africanos, a história europeia é estudada enquanto o ensino da história africana está ausente. Os jovens dos países de língua francesa conhecem toda a história da França, mas não a cultura de seu próprio país. Nesse sentido, continuou, é o colonialismo em tempo real, por controle remoto ou à distância; uma forma cultural, econômica e política de colonialismo. É verdade que pode não haver mais governantes ou governadores europeus em pessoa, mas ainda é sua linguagem e modelos político-econômicos que governam. 

Cristiano Rocha: 
Eu vejo, bem, inegavelmente, deve haver alguns fatores econômicos subjacentes a isso, mas eu me pergunto se você e eu podemos explorar a questão de uma perspectiva psicanalítica (que interessa muito a mim e a nós); posso perguntar por que, na sua opinião, essa... vamos chamar de psique coletiva africana foi tão infiltrada pela psique ocidental?

Padre Mos: 
Porque durante séculos foi dito aos africanos: "Você é emancipado, você é desenvolvido, você é... se você vive no Ocidente, se você adota estilos de vestir ocidentais, se você pode citar filósofos ..."

Então, há o esforço que o povo africano fez para ser ocidental. Como padre, vejo o aspecto religioso disso, no seu jeito de ser católico ou anglicano. Na África, as pessoas vão à missa todos os domingos, mas depois vão embora e realizam seus ritos e rituais tradicionais. Então, o fato de estar na igreja, vestido com roupas de estilo ocidental é dizer: "Veja, eu também cheguei ao seu nível, me tornei como você, finalmente estou emancipado, estou desenvolvido, estou moderno, não sou mais arcaico e assim por diante. Mas ainda mantenho minhas raízes praticando meus ritos e rituais, assim como meus ancestrais faziam".

Então, há esse aspecto permanente, mas o fato é que no nível filosófico, mas também em vários aspectos do nível cultural, os africanos preferiram buscar ou perseguir o Ocidente porque esse é o modelo de sucesso que foi apresentado para eles. 

Cristiano Rocha: 
Então, nesse sentido, poderíamos falar de uma espécie de divisão dentro do povo africano, dentro da psique do povo africano; pelo qual você tem essa parte superior, superficial, aderindo ao modelo ao qual eles tendem ou ao qual foram obrigados a atender; e uma parte interna que fica mais apegada a um certo tipo de cultura e tradições milenares.

Padre Mos:
Sim, há uma divisão. Isso também fica claro quando consideramos a diferença entre pessoas que vivem em cidades e pessoas que vivem em aldeias. Por exemplo, as tradições ancestrais foram mais preservadas nas áreas rurais. Nas cidades é bem diferente porque durante séculos a cultura africana foi demonizada como arcaica, pois..., muitas vezes disseram aos africanos: "Tudo isso é diabólico" ou todo tipo de coisas desagradáveis, a ponto de se envergonharem de sua própria cultura, suas próprias tradições, seus próprios hábitos e costumes. Então, as pessoas que vêm para a cidade tentam se livrar de tudo isso, sem conseguir totalmente por causa do vínculo permanente com a família, mas quem se muda para a cidade tenta seguir ou correr atrás do modelo ocidental, dizendo: “ Estou liberado, estou civilizado, estou modernizado, ... fiz progressos, então ... "
Porque é o modelo que lhes foi proposto como modelo vencedor: "somos civilizados, e na verdade viemos civilizá-los", então...

Cristiano Rocha: 
Para te libertar.

Padre Mos:
Para te libertar, para te civilizar, porque...
Então, é compreensível; qualquer um gostaria de subir no vagão vencedor, até mesmo o povo africano quer subir a bordo.  

Cristiano Rocha: 

Veja, existem estudos, talvez controversos, descrevendo processos culturais de hibridização entre colonizados e colonizadores que alguns consideram terreno fértil. Na sua opinião, esse tipo de consideração é aceitável? Se sim, então onde, quando e em que grau?

Padre Mos: 

Bem, é algo que você pode ver em vários países. A hibridização não é só cultural, agora também existem famílias interraciais, então essa hibridização cultural também surge daí. Você vê isso acontecendo em Cabo Verde, por exemplo, ou nas Ilhas Maurício.

Cristiano Rocha: 
Em Zanzibar.

Padre Mos: 

E na Tanzânia, por exemplo, e em... sim, existem esses testes, digamos que podem não ter sido planejados em torno da mesa, mas foram gradualmente surgindo por meio de casamentos mistos, embora a coexistência seja forçada ou voluntário. Tomemos, por exemplo, os índios, que chegaram como soldados ingleses e aí se estabeleceram; eles são agora parte integrante da sociedade. Então, eles trouxeram sua religião, sua cultura e se você for agora para Maurício, ou mesmo para Zanzibar como você mencionou, você verá que eles são parte integrante da sociedade. Você pode encontrar, por exemplo, um marido tanzaniano de origem africana com uma esposa de origem indiana. Na mesma família, o hinduísmo pode coexistir com o catolicismo, o protestantismo ou o anglicanismo. E é com esse pano de fundo que surgem novas formas de viver, pensar e se relacionar com a sociedade. Não é totalmente africano nem totalmente indiano. Então, essa é a cultura híbrida que emerge desse contexto.

Cristiano Rocha: 

Agora, a próxima pergunta que tenho a fazer a você está mais próxima das conceituações psicanalíticas. Há um conceito (muito caro a nós, psicanalistas), conhecido como Nachträglichkeit em alemão, deferred action em inglês e après-coup em francês. Esse conceito refere-se basicamente a um tipo de processo que poderíamos chamar de retorno póstumo ou retroação; Vou tentar explicar de forma bem simples, talvez um pouco redutiva: ocorre um evento traumático, após o qual há um período de latência, como se o evento nunca tivesse acontecido... ou não tivesse sido reconhecido. Então, mais tarde, ocorre outra, mesmo anos depois, que desperta (ação retroativa) o que havia acontecido no nível psíquico. E podemos falar tanto da psique individual quanto da coletiva.

Então, pensamos nesse conceito e depois em um post que fizesse referência a um evento posterior... ou seja, esse post, que se referisse a um efeito posterior, também tentamos pensar em relação à dinâmica pós-colonial. Deixe-me dar-lhe uma cotação. Psicanalista francês - o conceito foi amplamente retomado pelos franceses na esteira de Freud e traduzido para o francês como après-coup - J. André diz: “Après-coup é um trauma e se não é mera repetição, é porque contém elementos de significação que abrem, desde que haja uma escuta e uma interpretação, uma transformação do passado. Eles abrem uma transformação do passado.” Assim, após esta breve descrição do significado essencial deste conceito, gostaria de lhe perguntar: pode ser útil, em sua opinião, usar este conceito para pensar o pós-colonialismo? Quer dizer, pensando também em termos políticos, geográficos e econômicos, como o conceito pode informar nossa escuta e compreensão da dinâmica atual e da fenomenologia que podemos observar nas diversas regiões que foram colonizadas? 
Em outras palavras, que eventual uso poderíamos fazer dele? 

Padre Mos: 
Bem, seria preciso analisar como a vida está sendo vivida país por país. Seria necessário olhar para um país de cada vez. Porque a situação africana que temos hoje é tão diversificada devido a toda uma série de situações, sejam elas políticas, económicas ou outras. Mas tomemos o exemplo de Gana. Hoje, Gana é um país que está tentando se livrar das "cadeias" que o ligam a um passado sob o domínio colonial. Por isso, está tentando reafirmar sua plena independência econômica e cultural; está fornecendo inúmeros incentivos, principalmente na esfera da cultura, pensamento e desenvolvimento, para recuperar sua própria história e suas próprias tradições enquanto olha para o futuro. Assim, Gana poderia ser um dos países a serem estudados para entender essas experiências.

Cristiano Rocha: 

Então, uma espécie de laboratório na sua opinião?

Padre Mos: 

Sim, para mim sim. É um laboratório que também está chegando a vários outros, por exemplo, o apelo contínuo que faz aos afro-americanos para renovar os esforços para a recuperação da história, cultura, hábitos e costumes da África negra, aqueles que remontam ao período colonial tempos e ainda mais para trás no tempo para o tráfico de escravos. Então, está tentando recuar uns trezentos a quatrocentos anos para recuperar sua identidade histórico-cultural e adaptá-la ao presente. Assim, por um lado, redescobrir-se plenamente a si mesmo e ao povo africano. Não era uma tabula rasa antes do colonialismo; tinha sua própria cultura, tradições e história. Assim como falamos dos vários governantes da Europa Ocidental, lembremos que houve reis e rainhas da África, da África negra, que também foram poderosos e ricos fazedores de história. Então, com a ajuda de muitos roteiristas, roteiristas e diretores, Gana está tentando recuperar tudo isso.

Para mim, Gana é um forte exemplo, mas do outro lado há países que parecem estar retrocedendo; talvez isso se deva também ao fato de estarem dilacerados por uma situação interna de desintegração no plano político-cultural, que dificulta para eles trabalhar e avançar.

Olhe para a Somália, olhe para quase todo o Chifre da África: hoje está atolado em um pântano; fechou-se, como a Eritreia que se fechou e vê o Ocidente como um inimigo absoluto ou, em todo o caso, o vê com desconfiança. Assim, tenta isolar-se, sem avançar nem ao nível do pensamento nem ao nível do crescimento económico... ou em qualquer outro nível... é um estado congelado que não ajuda nem o país nem o povo.

Por outro lado, há a Somália que foi dilacerada por toda a situação econômica, mesmo que agora haja pequenos sinais de mudança doméstica. Também na Somalilândia há indícios de um movimento tímido em direção ao desenvolvimento, de todos os pontos de vista, tanto políticos quanto econômicos. Ao mesmo tempo, as expectativas anteriormente mantidas para a África do Sul estão sendo perdidas; A África do Sul deveria ser o laboratório por excelência, mas infelizmente, nos últimos anos, parece ter ficado um pouco paralisado. Agora, esse teria sido o terreno ideal, após o processo de reconciliação e todo o trabalho feito com Mandela para superar as divisões. Foi aí que o trauma do colonialismo e do apartheid foi vivenciado; deveria ter levado a um novo modelo ou ao que falávamos antes - uma nova cultura híbrida, surgida da amálgama dos africanos e brancos que eram então parte integrante da sociedade; mas a crise econômica retardou qualquer tentativa de forjar unidade nacional, qualquer tentativa de criar unidade cultural; pelo contrário, nos últimos anos as tensões internas explodiram em ataques violentos contra imigrantes recém-chegados, deixando dezenas de mortos. Alguns argumentam que toda a economia ainda está nas mãos dos brancos, então, embora de fato não haja apartheid político, há apartheid econômico.

Tudo isso não ajudou a África do Sul moderna a tomar as medidas necessárias para processar os traumas do passado e não permitiu que a população avançasse da maneira que Mandela também esperava. Sua esperança era que o processo de reconciliação, do qual ele era defensor, viesse uma nova página na história da convivência e acolhesse uma cultura híbrida sul-africana, algo que ainda não foi alcançado.

Cristiano Rocha: 
Eu entendo que não há uma resposta fácil para isso, mas neste momento eu gostaria de perguntar a você; quando estamos falando de “trauma comparável”, como é que existem algumas áreas onde as respostas são... ou melhor refletem (talvez) maior elaboração do próprio trauma, enquanto em outras áreas isso parece não acontecer? Por exemplo, comparemos Gana e o Chifre da África. Você citou Gana como um país onde o processamento de traumas parece ser mais bem sucedido e onde consequentemente podemos observar a capacidade de buscar e recuperar certos valores do passado distante, por exemplo . 

Padre Mos: 

É por causa da instabilidade política. Felizmente para Gana, teve algum grau de estabilidade política nos últimos 40 anos, estabilidade política que lhe permitiu pelo menos começar a trabalhar ao longo de sua história. O Chifre da África continuou a saltar da frigideira para o fogo, de uma ditadura para outra, de um conflito para outro e, portanto, muitas figuras do estrato intelectual do Chifre da África morreram na guerra ou na prisão ou então escapou para morar no exterior então...
 
Veja a Etiópia... foi ocupada pela Itália por apenas cinco anos, porque a ocupação italiana durou de 1935 a 1940-41; foi de curta duração e a única ocupação real da Etiópia. De todos os países do Chifre da África, é o menos traumatizado, o país que mais conservou sua história e tradições. No entanto, passou por muitos outros traumas devido a sucessivas guerras e ditaduras. Isso custou tanto mental, físico e econômico que a Etiópia não foi capaz de se engajar no processo de auto-reflexão e emancipação. 

Depois de conquistar a independência em 1960, a Somália caiu sob uma ditadura que não pensava em investimentos em nível cultural ou de recuperação, e não tinha o objetivo de emancipar o pensamento e muito menos qualquer outra coisa; pensava mais em fazer guerras. Quando você envia seus jovens para a guerra, quando eles são aqueles em quem investir e aqueles que podem promover o desenvolvimento cultural e econômico, você paralisa qualquer tentativa de crescimento e mudança. Siad Barré não fez nada além de travar guerra, com a Etiópia e outros países vizinhos. Seu governo durou 17 anos, mas foram 17 anos de guerra.

Cristiano Rocha: 
Pois bem Padre Mosé, gostaria de lhe fazer esta última pergunta: seguindo aquela linha de pensamento denominada antropologia reversa, adotada por vários autores africanos desde a década de 1930, posso perguntar-lhe sobre o modo como a África vê a Europa?

Padre Mos: 
Hoje, existem vários escritores africanos que pararam de tentar encontrar um bode expiatório para as desgraças da África, quero dizer, tentar culpar o exterior... felizmente, hoje, há uma série de escritores, intelectuais, que estão tentando ajudar a África a se livrar do colonialismo. Eles estão ajudando-os a olhar para si mesmos como são hoje e para sua própria classe dominante, sua própria capacidade de entender a situação em que estão vivendo, como estão vivendo e, portanto, também o papel ativo que estão desempenhando neste contexto atual, para não chorar apenas pelo que aconteceu há 60 ou 70 anos.

Hoje há escritores, intelectuais, diretores e até comediantes que se destacam nisso. Por exemplo, estou trabalhando com alguns jovens atores de teatro que estão ajudando a conscientizar os africanos sobre quem são, o que querem ser e para onde querem ir. Então, eles os cutucam junto com a mensagem: “Hoje, você é responsável pelo que está acontecendo com você, pelo que está vivenciando. Não chore apenas sobre o passado, olhe para quem está governando você hoje, de onde ele vem, como ele chegou onde está e qual contribuição você fez para ele estar naquele lugar hoje.”

Felizmente, há jovens intelectuais que estão tentando ir além da fase de culpabilização do homem branco que ocupou, roubou e explorou... Eles também estão se engajando em um processo de recuperação, a partir das tradições. Alguns deles dizem: bem, e nossos bisavós e nossos tataravós, como eles lidavam com os problemas? Como resolveram os conflitos? Quão...? 

Então, eles estão voltando às suas raízes; por exemplo, eles estão pensando em como seus ancestrais resolveram seus conflitos por terra, gado, casamentos e dinheiro sentados juntos debaixo de uma árvore, e então eles podem sugerir: bem, vamos trazer de volta os costumes de nossos avós; a capacidade de diálogo, a capacidade de justiça, a forma como foi administrada; não no tribunal, mas pela assembléia da aldeia; como as viúvas foram ajudadas? 

Como os órfãos foram ajudados? Pela vila. Antes que o homem branco chegasse e construísse orfanatos ou outro tipo de estrutura que pouco tinha a ver com o contexto africano. Ao recuperar essa história, essas histórias, esse jeito de fazer, trazer tudo de volta para o presente, esses jovens intelectuais estão dizendo: olha aqui, nós também tínhamos nosso jeito de fazer justiça, também tínhamos nosso jeito de resolver conflitos e tínhamos uma grande capacidade de dialogar, de ouvir. Então, vamos recuperar tudo isso. Vamos trazê-lo para os dias atuais para lidar com os problemas que estamos enfrentando agora. 

Cristiano Rocha: 

Sim, em termos psicanalíticos, seria uma espécie de tentativa de processar o trauma.

Padre Mos:
OK. Sim, sim, é uma forma de processamento do trauma; porque esse trauma interrompeu o que poderia ter sido o desenvolvimento natural desses costumes, cultura e práticas, que acabariam por levar a leis escritas e à lei como a entendemos. Infelizmente, no entanto, essas práticas e abordagens de convivência têm sido amplamente transmitidas oralmente de avós para netos, filhos e filhas, há pouco por escrito e isso inclui o campo jurídico. Por exemplo, a Etiópia teve o Fetha Nagast, traduzido para um grande número de línguas diferentes, que foi, durante séculos, o livro de leis dos vários governantes que sucederam ao trono da Etiópia até a década de 1960. Felizmente, foi escrito. Começou como uma pequena coleção de artigos, mas pouco a pouco cada governante sucessivo acrescentou algo a ela. Assim, acabou se tornando um tomo bastante substancial e abrangente que abordava todos os aspectos da vida e da sociedade, da religião aos casamentos. 

Cristiano Rocha: 
De qual época estamos falando?

Padre Mos: 
Se não me engano, ele se originou no século XV e foi usado até o último imperador, o governo de Haile Selassie terminou em 1974. O texto foi traduzido, você pode encontrá-lo em inglês também.

Cristiano Rocha: 
Agora, você mencionou que também abordou a dimensão religiosa da vida.

Padre Mos: 
Sim Sim. Tratava de assuntos religiosos, sociais e políticos. De fato, tratava-se originalmente de lei religiosa porque, na época, o rei também era sacerdote.

Cristiano Rocha: 
Que religião era essa?

Padre Mos: 
cristão ortodoxo

Cristiano Rocha: 
Bem, Padre Mosé, muito obrigado pelo seu tempo e espero que possamos nos encontrar novamente em breve e talvez até pessoalmente.

Padre Mos: 
Obrigado. 
Biografia:
Mussie Zerai (Asmara, 1975), conhecido como Pai Moses
, cresceu com sua avó e seus sete irmãos após a morte prematura de sua mãe, quando Zerai tinha quatro anos, enquanto seu pai deixou o país para se refugiar na Itália. 

Em 1992, aos 17 anos, Mussie também fugiu para a Itália, onde pediu asilo político e obteve uma autorização de residência, trabalhando no mercado do fazendeiro em Roma, depois como vendedor ambulante de jornais e, finalmente, como recepcionista em uma clínica, enquanto estudava e se formava primeiro em filosofia e depois em teologia.

Em 10 de março de 2004 recebeu seu primeiro telefonema de SOS do mar e, em 2006, fundou em Roma a agência sem fins lucrativos Habeshia (na verdade, ele é o presidente), cujo nome em árabe significa 'mestiço', pois ele está convencido de que a identidade na Eritreia é mestiça. 
Graças a Habeshia a assistência aos migrantes e marginalizados tornou-se mais sistemática, na convicção de que 'não pode haver paz sem justiça, não pode haver paz sem direitos'. Desde então, seu número continua sendo escrito em camisetas, nas paredes dos navios e nas prisões, pessoas ligando para ele de cervejarias líbias, prisões egípcias ou campos de refugiados no Sudão.
 
Foi ordenado sacerdote em 2010, tendo como modelo o de Giovanni Battista Scalabrini, beatificado em 1997 com o título de Pai dos Migrantes.
 
Mussie Zerai - indicado ao Prêmio Nobel da Paz em 2015 e listado pela revista Time como uma das 100 personalidades mais influentes de 2016 na categoria 'Pioneiros' - sempre atende aos chamados. Ele é de fato conhecido como "o telefone móvel do Mediterrâneo".

Em 2016, propôs ao primeiro-ministro Matteo Renzi, e aos presidentes do Senado e da Câmara dos Deputados, Pietro Grasso e Laura Boldrini, reunir os sepultamentos de todas as vítimas do massacre de 3 de outubro de 2013 (a tragédia que, como ele disse, faz 'a alma chorar') em um único lugar para, disse ele, "fazer com que descansem juntos, como juntos morreram e como juntos - até aquele trágico amanhecer - acalentaram a idéia de um uma vida livre e digna. Isso criaria um pequeno santuário para a imigração, onde poderíamos rezar, trazer uma flor e refletir. Devemos a eles por piedade humana. Nunca recebi nenhuma resposta ».

Em 2016, o prefeito Walter Veltroni, com a ajuda de um grupo de especialistas, elaborou um projeto segundo o qual o Palazzo Selam de Roma se tornaria um centro autogestionário e parte de um plano mais amplo de inclusão e integração social, com o objetivo de criando um modelo romano de hospitalidade, a ser exportado para outros lugares. Este projeto foi de fato mal sucedido.

Em 2017 publicou, com Giuseppe Carrisi, Padre Mosè (Giunti), um livro sobre a sua vida, no qual ilustra os quatro pontos-chave que lhe são necessários para fundamentar um sistema legal de imigração (pp.214 e segs.).  

Kaha Mohamed Aden Entrevista para a Somália
Pergunta 1 
1) Como descrever o Chifre da África em relação à 'amnésia e remoções' dos governos e estados que o ocuparam?


A amnésia e o afastamento dos colonizadores são aspectos cruciais para a historiografia contemporânea, pois tratam tanto da política interna (como o debate político sobre como lidar com questões atuais como a imigração ou os direitos culturais) quanto a necessidade de construir uma nova identidade, livre de a opressão e as responsabilidades da supremacia despótica dos governos ex-coloniais. Para não me submeter mais uma vez à centralidade dos países coloniais, concentro minha atenção no que os somalis “chegaram” e no que o resto do mundo, que não coincide estritamente com os países que ocuparam o Chifre da África, permitiu que a Itália fizesse, esquecendo e assim sacrificando os pedidos de liberdade e independência dos somalis para recompensar a Itália que, no último minuto, se aliou aos vencedores da segunda guerra mundial.

“Foi um momento especial para a Somália. O mundo inteiro (por assim dizer) achava certo que a Itália, a nação colonizadora, introduzisse a Somália no processo de democracia. Essa ideia 'nascida' da Assembleia Geral das Nações Unidas duraria de 1950 a 1960 e foi chamada de Território Fiduciário da Somalilândia sob administração italiana (AFIS)”.

Algo sobre este evento é inacreditável e voltei a ele em mais de uma história: senti a necessidade de falar sobre a situação paradoxal em que se encontravam aqueles somalis que lutaram pela independência. É difícil engolir o fato de que as Nações Unidas, alegremente esquecendo os pedidos daqueles que apoiam a independência e o direito dos somalis ao autogoverno, deu à Itália – a nação colonizadora – carta branca para orientar os somalis na criação de um estado democrático, através do AFIS – uma instituição cheia de ex-fascistas, nada menos! 
Olhando mais de perto, nós, somalis, também não somos estranhos a certas remoções. Tomemos o caso do embate sobre a convocação de eleições gerais sobre a lei eleitoral 4.5 , atualmente em vigor em detrimento da lei baseada no princípio “uma pessoa, um voto”. Infelizmente, tenho notado que, tanto quanto sei, esse confronto não levou à consciência de que a lei 4.5 é uma maçã envenenada de um determinado momento:

“…no final do colonialismo na pressa de estabelecer um estado democrático para alcançar a independência. Foi um processo no qual os colonialistas e seus colaboradores estiveram fortemente envolvidos. O resultado final foi uma confusão tão grande que nem sequer contemplou um censo ou qualquer tentativa de modernizar as ferramentas que tradicionalmente regulavam o conflito. As forças da independência aprovaram o projeto para se livrar dos colonialistas” 

A amnésia, portanto, não afeta apenas os governos de países como a Itália, que ocupou o Chifre da África, mas também instituições como as Nações Unidas, sem falar no próprio Chifre da África, no nosso caso, os somalis. Assim, uma conversa aberta para enfrentar esses “lapsos de memória” e/ou reformulações só pode ser positiva e útil.


Pergunta 2 
"As nações pós-coloniais modernas - segundo alguns estudiosos como Partha Chatterjee (1993) - se assemelhariam a uma segunda cópia da grande nação europeia e, dessa forma, representariam os espaços mais adequados para a realização de suas atividades econômicas, sociais e culturais. propósitos". O que você acha? Como você interpreta essa afirmação? Você o compartilha? Se sim, por quê? Se não, por quê? 


No caso da Somália, por exemplo, o impulso para a desarticulação do sistema de Estados-nação, causado pela globalização e pela guerra civil de 1991, é um contexto sócio-histórico muito diferente daquele em que se formaram as grandes nações europeias. A separação de poderes é um elemento integrante da forma nacional que se formou há muito tempo na Europa, enquanto na Somália, devido ao conflito que ainda não foi definitivamente concluído, pode ser menos claro, ou assumir uma forma “anômala”. No meu artigo “Cambio d'abito”, tentei explicar o meu ponto de vista sobre o papel das mulheres somalis neste contexto complicado.

“Na ausência do Estado e na presença da violência dos senhores da guerra, em meio ao caos, as mulheres na Somália desejavam a “lei”, a sharia. Quando a “somalidade” – o tecido real e metafórico que mantinha a população unida – se desfez, acredito que as mulheres colocaram essa nova roupagem entre seus corpos e a violência. Ao mesmo tempo, eles descobriram que a religião era um novo recipiente de identidade comum, que ia além das divisões dos clãs”. 

Está claro que a religião é central, não apenas para manter os somalis unidos como povo – como nação – mas também no que deveria ser o objetivo de um Estado que consegue ser democrático. Aqui surge a questão da democracia no seu papel de garantir a segurança de todos os seus cidadãos e, portanto, também das mulheres. Somente a proteção dos direitos pode evitar que as mulheres fiquem à mercê dos abusos da milícia. E os somalis, como outros povos, estão percorrendo o que acredito serem caminhos inexplorados e não posso excluir, na verdade espero, que à sua maneira no seu destino eles se tornem uma nação democrática, sem se tornar uma cópia das grandes nações europeias. É preciso explorar novos caminhos para alcançar em pouco tempo um objetivo tão difícil.


Pergunta 3 
Em relação à identidade: o que você acha dessa linha de estudos controversa (ou seja, Homi K. Bhabha em The Location of Culture de 1994 usa conceitos como mimetismo, interstício, hibridismo e liminaridade para argumentar que a produção cultural é sempre mais produtiva onde é mais ambivalente), em que falamos sobre os processos culturais de hibridização em que colonizados e colonizadores estão envolvidos como processos às vezes até férteis? Você poderia dar alguns exemplos? 

Vou tentar começar com um exemplo de uma história minha publicada em uma coleção intitulada Fra-intendimenti. A história começa assim:

“Quatro horas da noite, para o mundo em geral, ou dez horas da noite para quem tem a honra de ser de Mogadíscio. Acontece o que normalmente acontece nas casas onde mora pelo menos um somali: o telefone toca […] 
Esfrego os olhos, olho para o relógio e digo: “Que horas são?” então, para mim mesmo: “Oh Senhor! São dez da noite!”
O Sr. F. intervém com a voz descontraída de quem sempre consegue o que quer. Ele me corrigiu dizendo: “Quatro horas, quatro horas”.
Na Somália, uma garota do clã Hawiye diria dez horas, uma garota Daarood diria quatro horas (como aqui na Itália). Como sou um Daarood que cresceu cercado por Hawiyes, posso usar qualquer forma; então eu concordo com ele, repetindo: “Quatro horas, quatro horas”. 


Então, essa personagem, uma mulher somali que se mudou para a Itália para recomeçar, tem um sistema de medição de tempo duplo. Conforme a história avança, a protagonista se esquece de acertar o relógio e se surpreende ao ver que o banco ainda está fechado, então com a mudança para o horário europeu, a complexidade aumentou e o sistema de medição espaço-temporal de nosso protagonista não é apenas binário, como Bhabha nos ensina, mas triplo: duas vezes somali e uma italiana.

Para mim, são elementos de complexidade que costumo contrastar em minhas histórias com os estereótipos simplificadores que são projetados nos imigrantes nas sociedades em que chegam; estereótipos que, aliás, muitas vezes têm as suas raízes no colonialismo. No entanto, são também uma forma de partilhar a possibilidade de os imigrantes da mesma área de origem terem diferentes referentes espaço-temporais e o facto de três sistemas temporais poderem coexistir numa só pessoa, onde a aquisição de um não implica a anulação do outro. A aquisição de conhecimento não é soma zero. Mas e quando os personagens vêm de lugares diferentes? Em outra história, em que há três pessoas – um intérprete, um funcionário público e uma idosa solicitante de refúgio – a situação é outra. Embora a idosa queira fazer parte da sociedade de acolhimento com direitos e deveres iguais, ela defende ferozmente suas normas culturais e comportamentais sem ceder um centímetro ao longo de toda a história. O funcionário público, por sua vez, apega-se às rígidas regulamentações de seus referentes espaço-temporais em sua função de chefe de gabinete. A estreiteza de mente desses dois personagens faz com que a presença do intérprete pareça supérflua e na história o intérprete também se torna um terceiro espaço no qual fluem ambivalências. Descrever uma situação deste tipo como autor fornece-me uma forma de relatar aos meus leitores um dos muitos conflitos, neste caso entre igualdades e diferenças que emergem já com a chegada dos imigrantes. Como requerente de asilo, a idosa deve ser tratada segundo os critérios universais da Igualdade, mas, por outro lado, como defensora de uma cultura específica, ela quer e tem direito ao respeito pela sua diferença; ela não está disposta a se conformar: 

“A dinâmica do 'jogo': o Sr. D. (funcionário público) faz perguntas, eu traduzo para a senhora que depois responde e eu traduzo para o Sr. D.
Os dois começam a falar comigo ao mesmo tempo. Um grande começo para o dia!
Pergunto ao funcionário público se ele se importaria se eu ouvisse a senhora. Um pouco irritado, ele concorda. Após uma breve introdução, as entrevistas sempre começam com suas perguntas, ele é o ator principal neste palco.
A senhora: Minha querida, quem é este homem? Seu marido?
Eu não.
O funcionário público: O que ela está dizendo?
Eu: Ela quer saber quem somos.
O funcionário público: Diga a ela que eu faço as perguntas. Qual a idade dela?
Na minha parte do mundo, você tem que cumprimentar os idosos longamente e só eles podem fazer perguntas para começar. Minha senhora não faz exceções. Na verdade: “Se ele não é seu marido, o que você está fazendo nesta sala com ele?”  


A história continua assim por toda parte, com os dois oradores principais nunca se encontrando. Mas como autor, por meio de certos elementos estruturais da minha forma de escrever, jogo mais um jogo; além da explicação da complexidade e da introdução dos leitores às diversidades culturais de que falei, a mesma estrutura narrativa – por meio de discurso direto, hesitações, perguntas, comentários metanarrativos e dúvidas – rompe barreiras rígidas de identidade e busca estimular os leitores a agir para construir um mundo, uma casa, em que a vontade de ouvir seja condição necessária para a inclusão.


Pergunta 4 

Usando o conceito, caro a nós psicanalistas, de Nachträglichkeit, o que poderíamos pensar do pós-colonialismo? Onde esse 'pós-' se refere a um depois, a um evento subsequente que, no entanto, implica um antes que 'não tinha (ainda) acontecido'? J. André poderia ter razão quando observa que "O après-coup é um trauma, e se não é simples repetição é porque contém elementos de significação que abrem, na condição de encontrar uma escuta e uma interpretação, numa transformação do passado"? Se você acredita que essa pergunta pode fazer sentido para 'pensar' o pós-colonialismo, qual seria a escuta e interpretação necessária em termos políticos e geográficos na sua opinião?


Obviamente, o pós-colonialismo não tem o mesmo significado para o colonizado e para o colonizador. Para estes, pelo menos para a maioria deles, o passado é visto com culpa, uma série de ações que não são mais justificáveis, mas que não encontraram obstáculo na época, senão em pequenos nichos da opinião pública e/ou no caso de aspectos particularmente abomináveis ​​(como o tráfico de escravos). Eu deveria pertencer aos pós-coloniais – os ex-colonizados – mas essa perspectiva é surpreendente porque não é minha, senão por reflexo. Na verdade, pertenço à geração do período da independência, cuja principal perspectiva era o futuro. Para nós, o trauma do colonialismo, como uma ofensa e não uma responsabilidade, foi aliviado em particular pela perspectiva do futuro, que coincidiu em uma fase com o “futuro socialista radiante”. Foi uma formidável operação cultural que tratou do passado colonial recente e recuperou contemporaneamente tempos anteriores ou coloniais, reavaliando formas de convivência, culturas e tradições que compuseram nossa história. Uma nova maneira de olhar para as próprias origens para ver o futuro sob uma nova luz.

Assim, quando jovem, em meu livro de geografia, Dhig e Lool, os galhos que compunham a estrutura das cabanas dos nômades levavam os nomes dos meridianos e paralelos da Terra (afinal, a Terra é nosso lar). Da mesma forma nos livros de história, o herói não aparecia como Mad Mullah, o fanático louco, como os ingleses (o Império) gostariam, mas como Sayid Mohamed Abdille Hassan. Mohamed Abdille Hassan também se destacou na literatura, como um dos poetas mais importantes dos anos 1900 na Somália. Seus poemas eram pura propaganda contra os invasores colonialistas, bem como uma ferramenta para entender as razões de suas batalhas. No entanto, foram também uma forma de conhecer a vastidão, a riqueza e a beleza da língua somali.

Tínhamos que estudar seus poemas e havia um em particular que precisávamos saber de cor: aquele sobre a Batalha de Dhul Madoobe. O poema é dedicado aos homens daruís de seu exército que caíram antes da vitória contra os ingleses, liderados por Richard Conyngham Corfield, mortos em batalha. Nesta ocasião, Sayid escreve um poema que é um relato autêntico e detalhado da vitória na qual ele delega ao oficial inglês “o dever” de informar os gloriosos darwiish que estão descansando na vida após a morte.

Enquanto um passado estava sendo construído para planejar um futuro, o colonialismo estava naturalmente presente em todos os lugares, mesmo fisicamente falando: negativamente, por exemplo, nas cidades, nos edifícios dos colonizadores, positivamente nas estátuas dos heróis da independência como a de Sayid. A estátua de Sayid – o professor, o guia, você só tinha que dizer Sayid e absolutamente todo mundo, mesmo aqueles cujos ancestrais ele saqueou e matou, pensavam nele – estava ali em seu pedestal, no “novo” centro da cidade, para restaurar a dignidade e a honra e representar os valores que levam ao ressurgimento. Depois houve a queda, precedida por outra queda, a ditadura, que abriu o caminho para ela. Houve uma queda, um banho de sangue liderado pelos senhores da guerra que, para acabar com a ditadura, iniciaram uma guerra civil que, como uma enchente, varreu nossa História Compartilhada, entre outras coisas. Em 1991, no início da guerra, uma massa de civis, “o povo”, atacou a estátua de Sayid, reduzindo-a a sucata e vendendo-a para algum bastardo…! Para essas pessoas, o anticolonialismo e, por outro lado, o colonialismo evidentemente não significavam nada ou pelo menos não era sua prioridade.

As atuais tentativas de reconstrução do frágil novo Estado federal são bastante incertas: basta pensar na disputa em curso entre o governo central e as regiões, que deixa todo o país no mar. Em meio às tempestades de clãs e seus aliados importantes, a estátua de Sayid reaparece no mesmo lugar que ficou vazio todos esses anos! O que isto significa? Como trinta anos de violência e guerra civil conseguiram preencher esse vazio? Como a violência constante e diária reescreveu nossas histórias e o que nos tornamos?

É claro que devemos prestar atenção e ouvir estas questões à luz de tudo o que aconteceu desde a independência.

Então, mais do que pós-colonial, eu me chamaria de uma mulher pós-independência, que ouve com curiosidade e está aberta a interpretações, mas acima de tudo em busca de uma bússola.


Pergunta 5
 “Dado que lidam principalmente com a complexa questão da alteridade, os estudos (pós)coloniais muitas vezes se cruzam com os estudos das mulheres, especialmente na área de convergência de questões raciais e de gênero. Esses estudos falam da dupla subordinação das mulheres: qual é a sua visão?”


Escrevi e escrevo sobre subordinação porque acredito que é uma questão social e política importante que não podemos deixar de considerar. Nas minhas histórias há personagens femininas que se encontram em uma situação em que são submetidas a vários tipos de subordinação, não apenas duplas, mas também triplas ou múltiplas: renda, status, etnia, cor da pele, para citar algumas. Além disso, não é incomum que todos eles pesem sobre os ombros de uma única mulher. Há momentos em meus escritos, considerando a questão da subordinação das mulheres, em que tento oferecer cenários alternativos em que elementos que são considerados pelos estereótipos da sociedade de acolhimento como símbolos da subordinação das mulheres não são nada disso para o as chamadas mulheres subordinadas; na verdade parecem ser elementos que os completam e lhes conferem dignidade:

“Aisha mudou seu estilo: agora ela usa o hijab. Ela faz parte de uma grande comunidade em Londres, a comunidade muçulmana. Quando ela tinha acabado de chegar a Londres, ser apenas uma pobre viúva refugiada com seis filhos era muito difícil para ela. Preferiu acrescentar às outras coisas que lhe pertenciam algo que lhe desse dignidade e força. Com um véu e um lindo vestido preto longo, ela entrou pela porta principal da ummah. Agora ela é uma senhora muçulmana com um passaporte forte.” 

Aisha é uma mulher somali que, como muitas outras, fugiu do conflito e, uma vez na Grã-Bretanha, adquire um passaporte britânico. Mas, para pertencer plenamente à comunidade britânica, ela quer a inclusão de alguns elementos que são fundamentais para sua identidade, entre os quais a religião é certamente importante. Sua “diferença” que exige reconhecimento é exibida em uma vestimenta de grande significado simbólico: o hijab. Usar este véu é um “manifesto” de seu próprio desafio à subordinação. Procuro focar na subordinação em sua complexidade e, portanto, gosto de mostrar sua variedade. E isso não é tudo. Acho importante chamar a atenção também para aqueles que estão do outro lado da relação que é a subordinação, os não subordinados.

"Preto. Em outras palavras, sem cor. Aparentemente, qualquer um pode decidir que cor pintar sobre o preto. O caminhoneiro me pinta com a cor da prostituta. Uma feminista iluminista, daquelas que querem libertar mulheres que acham que estão em absoluta pobreza, me pintou como uma menina que foi subjugada pelos homens da minha parte e que, obviamente, precisava urgentemente de sua ajuda. Não éramos amigos. Sua ajuda foi ditada por minhas necessidades impetuosas, como ela as imaginava. Não havia como colaborar com ela. Ela queria, a todo custo, falar sobre como os homens da minha parte eram terríveis. Eu precisava de um aliado e silenciosamente percebi que não era possível fazer um dueto ou concordar com o peso e a prioridade de atribuir aos problemas de uma agenda hipotética que só poderia ser a cor do Blues. Algum rapaz de esquerda, ainda não desiludido, pintou-me com a cor de quem tem sempre razão, privando-me ao mesmo tempo de todas as cores de uma pessoa que pode escolher e agir livremente; não me deixou o risco que se corre ao escolher: o de errar.” 

Como pode ser visto neste trecho retirado do conto Vovô Y. e as Cores dos Aliados, há três personagens que representam três categorias heterogêneas: um caminhoneiro, uma “feminista iluminista” e algum “menino de esquerda, ainda não desiludido”. ”. Cada um deles cai, à sua maneira, na armadilha das generalizações. Para mim, o caminhoneiro tem a função de apontar a presença de fantasmas criados pela conotação erótica e sexual que a propaganda colonial deu à África no passado, enquanto os outros dois, ao achatar as mulheres em seres unidimensionais subordinados, não fazem nada além de roubá-los de todas as outras identidades que as mulheres negras são capazes de reunir dentro de si. Enquanto aqueles que permanecem cegos para a habilidade com que as mulheres se movem apesar do pouco espaço de manobra no caso de subordinação afogam no nada os esforços e a criatividade das mulheres negras nesses tempos difíceis.

Na minha escrita procuro não generalizar e por isso o facto de os imigrantes terem vários referentes culturais ou estarem em estado de subordinação não os torna imunes a preconceitos; nem todos os membros das sociedades a que chegam os imigrantes, os “brancos”, sejam homens ou mulheres, têm essas percepções generalizadas.

Além disso, é importante se distanciar daqueles discursos que com preconceito, talvez para justificar outras subordinações, representam todos os negros como perversos. De fato, também no conto Granddad Y. and the Colors of Allies, seguindo a mesma trajetória de diversificação, entre negros de uma mesma cultura, cultura somali por exemplo, desmenti o comportamento de “superioridade” com o qual os homens africanos são caracterizados: todos com a mesma mentalidade e uma visão mais obtusa e patriarcal. Conto um choque entre três mentalidades patriarcais sobre a delicada questão de permitir ou não que as meninas somalis frequentem a escola italiana. Por um lado, temos um grupo de “figões” somalis conservadores e um funcionário público do AFIS; por outro lado, a favor da escolarização das meninas e seu direito de estudar, temos o vovô Y. e seu amigo, motivados pelo desejo de aumentar a capacidade das mulheres de administrar mais de um mundo, e certamente não estimulados pela paixão por assimilação. Ambos os homens são membros eminentes da Liga da Independência da Somália contra o colonialismo. Nadia, ao contrário, se deleita com a assimilação e é, além disso, oportunista e traidora. Ela é uma personagem de outra história que leva seu nome. Quero dizer que dou às mulheres (e às mulheres, no caso da protagonista de uma fábula que escrevi ) várias características. Eles podem ser inteligentes, agressivos, bons e maus e talvez todas essas coisas juntas. O que todos eles têm em comum é a determinação e, mesmo quando satisfazem os outros, eles se movem de maneira ferozmente autônoma. Eles existem porque eu os vejo e com meus escritos convido aqueles que de alguma forma não têm lentes para vê-los a integrar seu olhar. Apresento complexidades e diversidades que contrasto com estereótipos simplificados, criados também (ou sobretudo) para justificar a subordinação.


Biografia
Kaha Mohamed Aden nasceu em Mogadíscio. Ela vive em Pavia, Itália, desde 1987. Ela se formou na Universidade de Pavia em Economia e Negócios e obteve um Mestrado em Cooperação para o Desenvolvimento na Escola Universitária de Estudos Avançados de Pavia (IUSS). 
Ela trabalhou para Volontariato Internazionale per lo Sviluppo (Voluntariado Internacional para o Desenvolvimento).
Desenvolve diversas atividades no setor da mediação cultural, abordando temas como a imigração e a interculturalidade.
Em 2001 escreveu “I sogni delle extrasignore e le loro padrone” publicado no livro La Serva Serve: le nuove forzate del lavoro domestico. ] por Cristina Morini, Derive/Approdi.
Em dezembro de 2002 ela foi homenageada com o prêmio San Siro pelo Município de Pavia por suas atividades no campo da mediação intercultural.
Em 2015 liderou a oficina de redação no Thinking Festival Já é necessário pensar? (Festival del Pensare Pensare serve ancora?), de onde surgiu a publicação Fil Rouge, edição Festival del Pensare, Cecina.
Em 2016 foi convidada pelo Australasian Centre for Italian Studies (ACIS), para realizar uma série de conferências: foi nomeada Visiting HRA – Honorary Research Associate na ocasião.
Ela escreveu para vários periódicos, incluindo: Nuovi Argomenti, N.27, 2004; Psiche, N.1, 2008, Incontri, Rivista Europea di Studi Italiani, Vol. 32, nº 2, 2017.
Colabora com a revista Africa e Mediterraneo, na qual publicou “Nabad iyo Caano. Pace e Latte, N.81, 2/14, “Cambio d'abito”, N..86, 1/17 e “Un felice goffo volo dallo Yaya Centre”, N.92-93, 12/20. Criou a performance La Quarta Via (2004), que serviu de base para o documentário homônimo. https://www.openddb.it/film/la-quarta-via/
Em 2010 publicou Fra-intendimenti (Nottetempo) e em 2019 Dalmar. La disfavola degli elefanti (Unicopli).